
Sessão Recife Nostalgia: Nos tempos do Ambolê, da Barreta e da Estância
Compartilhe esse post
Contemple a imagem acima. É uma paisagem do Poço da Panela, vista do bairro do Cordeiro, em um passado distante. Considerado atualmente como um local ainda bucólico, o Poço agora é pontilhado de espigões. As cidades mudam, se urbanizam, perdem a memória. Quem hoje, por exemplo, sabe onde era o “Caminho do Ambolê”? Alguém consegue dizer onde ficava a “Barreta”? E o que era a antiga localidade “Estância”, na área central do Recife? A “Avenida da Ligação” realmente existiu em Boa Viagem? Conseguiu decifrar alguma dessas perguntas? Caso contrário, vou dar uma dica boa para você. As respostas podem ser facilmente encontradas no livro “Os arredores do Recife”, que será lançado a partir das 19h30m da quarta-feira (11/3), na Academia Pernambucana de Letras.
O autor de “Os arredores do Recife” é ninguém menos que Pereira da Costa (1851-1923), advogado, político, historiador e jornalista, que nos deixou outros legados literários como “Anais Pernambucanos”, “Folk-Lore Pernambucano” e “Vocabulário Pernambucano”, este considerado uma obra clássica da lexicografia brasileira. O livro “Os arredores do Recife” acaba de ser editado pela Cepe (Companhia Editora de Pernambuco). Foi organizado pelo pesquisador Bruno Almeida de Melo e vem com um grande diferencial em relação às três edições anteriores, todas esgotadas. Possui 169 notas, que ajudam o leitor a se situar, hoje, no Recife de ontem. Apenas três notas constavam de antigas edições, sendo duas do historiador José Antônio Gonçalves de Mello (1916-2002) e outra do historiador Leonardo Silva (1945-2023), responsável por edições anteriores.
Por conta do cuidado do organizador, ao ler “Os arredores do Recife”, você vai descobrir e localizar lugares que desapareceram do mapa, como a Barreta. Originária do antigo sítio ou fazenda Barreta, suas terras margeavam o Litoral Sul e se estendiam de Afogados à praia de Boa Viagem. Outro exemplo: Estância. Há um bairro hoje chamado Estância (que fica na Zona Oeste), mas que nada tem a ver com a localidade com o mesmo nome, citada por Pereira da Costa no século passado. O lugar que perdeu-se na memória dos recifenses é descrito em artigo de janeiro de 1922, como “Estância de Henrique Dias”, e ficava entre os bairros do Derby e Boa Vista.
A “Estância” do passado se situava perto da Capela de Nossa Senhora da Assunção, hoje mais conhecida como Igreja das Fronteiras. Outra curiosidade é o antigo Caminho do Ambolê, na Várzea, atual Avenida Afonso Olindense. Sim, lembro desse nome, Ambolê, muito citado na minha infância pelos meus avós, que tinham parentes residindo na Várzea. Na verdade, “Os arredores do Recife” é um conjunto formado por 25 artigos escritos pelo historiador Pereira da Costa e publicados no Diário de Pernambuco, entre 1921 e 1923. É um livro tão útil a todos aqueles que se interessam pela evolução urbana do Recife, que não pode faltar em nenhuma estante. Tenho uma edição antiga, amarelada, as folhas se soltando, mas que funciona como eterna fonte de consulta. Na quarta, Bruno participa na APL de bate-papo sobre a obra com os historiadores George Cabral e Sandro Vasconcelos. George é Professor da Universidade Federal de Pernambuco- UFPE e presidente do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de PE.
Sandro Vasconcelos responde pelo Núcleo de Pesquisas do Museu da Cidade do Recife. Os artigos de Pereira da Costa mostram um Recife além das fronteiras do seu núcleo urbano central, que na época era formado por quatro freguesias (hoje correspondentes aos bairros do Recife, Santo Antônio, São José e Boa Vista). Passa por “arredores” como Madalena, Poço da Panela, Afogados, Jiquiá, Dois Irmãos, Apipucos, Curcuranas, Chora Menino, entre outros. “A partir desse olhar foi possível conhecer as histórias de origem daquelas áreas, e compreender como elas foram sendo transformadas ao longo dos séculos, até que formassem a cidade que temos hoje, na segunda década do século 21”, considera Bruno Almeida.
O livro tem 265 páginas, além de 65 imagens (fotos, gravuras e mapa). O ordenamento dos artigos obedece ao critério territorial, adotado por Pereira da Costa, e não mais à ordem alfabética dos lugares utilizada em edições anteriores. O organizador chama atenção para modificações feitas por Pereira da Costa após a publicação dos artigos no Diário de Pernambuco.
São mudanças pinçadas nos “Anais Pernambucanos”, obra historiográfica de Pereira da Costa, com 10 volumes, 5.566 páginas e que narra fatos relacionados à província no período entre 1493 e 1850. Bruno já trabalhou na organização de outras duas obras de Pereira da Costa pelo selo da Cepe Editora: Os bispos de Olinda (1676-1910), em 2023; e Tempos de jornal: reminiscências histórico-pernambucanas, em 2024. Pesquisador e sócio do IAHGP, Bruno é mestre em desenvolvimento e meio ambiente pela UFPE.
Serviço:
Evento de lançamento do livro Os arredores do Recife (Cepe Editora)
Quando: 11.03.2026, quarta-feira
Horário: 19h30
Onde: Academia Pernambucana de Letras (APL)
Endereço: Avenida Rui Barbosa, 1596, Graças, Recife/PE
Preço: R$ 60,00
*Evento aberto ao público
Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Cepe (recolhidas entre instituições como Fundaj e Museu da Cidade do Recife, e acervos particulares)
Fonte: Blog OxeRecife